Acupuntura e artrose
- Paulo Henrique Mai

- há 19 horas
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A osteoartrite, mais conhecida como artrose, é uma causas comum de dor, especialmente associada com o avanço da idade. Tradicionalmente descrita como uma doença “degenerativa”, ela é um processo complexo, que envolve não apenas desgaste da cartilagem, mas uma reorganização ativa de toda a articulação.

A medicina caracteriza a artrose por alterações na cartilagem articular, no osso subcondral, na membrana sinovial e nas estruturas periarticulares. Podemos simplificar isso pensando na cartilagem como um amortecedor capaz de absorção de impacto entre os óssos. Na artrose, esse amortecedor perde progressivamente sua integridade. Paralelamente, há formação de osteófitos (os chamados “bicos de papagaio”), espessamento ósseo e graus variáveis de inflamação.
A articulação deixa de funcionar com a suavidade e a adaptação de antes. O movimento passa a encontrar resistência, e o corpo, tentando compensar, reorganiza suas estruturas, o que, por vezes, gera dor e desconforto.
Como a artrose se manifesta
A dor da artrose geralmente piora com o movimento da articulação, e tende a melhorar com repouso e descanso. As articulações doloridas, por sua vez, parecem "travadas", com sua mobilidade reduzida, e podem apresentar crepitações (pequenos estalos à movimentação).
Algumas pessoas podem perceber uma rigidez nas articulações, normalmente pela manhã, que costuma melhorar em alguns minutos do dia. Essa rigidez é sentida como se o corpo precisasse aquecer antes de iniciar suas atividades.
Sinais e sintomas da artrose
Dor articular relacionada ao movimento
Rigidez após períodos de inatividade
Sensação de “travamento” ou crepitação (estalos)
Redução da mobilidade
Em fases mais avançadas, deformidades e limitação funcional
Joelhos, quadris, mãos e coluna são os locais mais frequentemente acometidos.
Os exames de imagem, como ultrassonografia, ressonância, raio-X e tomografia podem contribuir na investigação da artrose, mas nem sempre há uma relação clara entre imagem e sintomas. Há pessoas com alterações importantes em exames e pouca dor, e outros com dor intensa e alterações discretas. Isso nos lembra que a dor não é apenas um fenômeno estrutural, mas também neurossensorial e experiencial.
O tratamento da artrose
Eu acabei de compartilhar com vocês que a dor da artrose, inicialmente, piora ao movimento. Mas é justamente o movimento um dos principais pilares do tratamento da artrose. As evidências científicas atuais apontam que, tanto exercícios de fortalecimento quanto aeróbicos, à longo prazo, tendem a melhorar os sintomas da artrose. A regra de outro, quando ao exercício na artrose, é sentir até onde é confortável para o seu corpo. Muitas vezes, um educador físico ou fisioterapeuta pode contribuir nesse processo.
A atividade física, de todas as intervenções, é a única capaz de interferir na evolução da doença. A artrose é uma doença progressiva, que tende a piorar com o tempo. Nenhuma medicação é capaz de intervir nesse processo como a atividade física faz.
Sabemos que o sobrepeso e a obesidade são fatores de risco para artrose. Por conta disso, muitas vezes recomendamos estratégias de controle do peso a fim de minimizar os sintomas. Eu mesmo, em 2018 fraturei o joelho. Desde lá, busco manter um rigoroso controle do peso corporal, pois sei que se eu estiver acima do peso tendo a apresentar um risco de precocemente desenvolver artrose no joelho lesionado.
Sulfatos de glucosamina e condroitina, assim como colágeno hidrolisado do tipo II, são duas medicações que temos por hábito prescrever para tentar dar suporte ao corpo para manter a estrutura cartilaginosa, mas, infelizmente, o efeito dessas medicações é bastante limitado e elas não tem evidências de intervir no processo evolutivo, então, muitas vezes, nossa abordagem farmacológica vai focar mais no alívio da dor.
Dentre as intervenções que buscam aliviar a dor, ganham destaque as infiltrações, a neuromodução e a acupuntura.
Como acupuntura pode ajudar pessoas com artrose
A dor na artrose frequentemente ultrapassa a dimensão mecânica. Com o tempo, pode haver sensibilização do sistema nervoso, alteração na forma como o cérebro processa a dor e impacto emocional relevante. Chamamos isso de sensibilização central à dor. É é o principal ponto em que a acupuntura atua.

Podemos analisar a ação da acupuntura sobre dois pontos de vista: o modelo biomédico contemporâneo e a medicina tradicional chinesa.
Do ponto de vista biomédico, seus efeitos incluem modulação da dor por vias neuronais centrais e periféricas, liberação de endorfinas (substâncias que aliviam a dor), regulação de neurotransmissores e possível influência sobre processos inflamatórios locais. Na prática, muitas vezes, esse efeito está associado a redução da dor e sensação de relaxamento, melhora do sono e maior facilidade de movimento.
A evidência científica para acupuntura na artrose, especialmente de joelho, é consistente. Estudos sugerem benefício na redução da dor e melhora da função.
Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a artrose pode ser compreendida dentro das síndromes Bi, associadas à obstrução do fluxo de Qi e Xue nos meridianos. Frequentemente se somam elementos de deficiência, especialmente de Rim e Fígado, refletindo a perda de nutrição e sustentação das estruturas ao longo do tempo. A MTC é um mundo a parte, com sua própria racionalidade, na qual o tratamento para artrose buscaria desobstruir os meridianos, movimentar Qi e Xue e tonificar possíveis deficiências. Pontos como Zusanli (E36), Sanyinjiao (BP6), Taixi (R3), Taichong (F3), além de pontos locais, são frequentemente utilizados, sempre adaptados ao padrão individual.
Independente da racionalidade analisada, os resultados da acupuntura costumam incluir:
alívio da dor;
alívio da rigidez;
melhora da flexibilidade e da amplitude do movimento
relaxamento;
melhora do sono.
Se a atividade física regular é o pilar fundamental do tratamento, a acupuntura pode contribuir ao reduzir a dor e a rigidez, facilitando que pessoas com artrose realizem caminhadas, musculação, yoga, pilates ou outras práticas corporais com mais conforto.
Há aqui uma espécie de ciclo virtuoso: a acupuntura reduz a dor, o que facilita o movimento; o movimento melhora a função articular, a força muscular e a percepção corporal, contribuindo, por sua vez, para ainda mais alívio da dor.
A experiência vivida pelas pessoas com artrose
A dor é desafiadora, mas não deixo de notar que, muitas vezes, os pacientes trazem para o consultório um aspecto ainda mais desafiador: o peso simbólico da ideia de “desgaste”.
Para muitos, a artrose é compreendida como um processo inevitável de perda, o que frequentemente leva à evitação do movimento e, de forma paradoxal, ao agravamento da dor e da limitação funcional.

Particularmente, já tive o privilégio de acompanhar pacientes com alterações estruturais significativas e que, mesmo assim, recuperaram função, reduziram dor e ampliaram as possibilidades de vida. Um elemento que os livros não trazem, mas que considero central, é a esperança. Tendo isso em mente, gosto de pensar na a acupuntura como uma ponte, não apenas modulando a dor, mas favorecendo uma reconexão com o corpo, permitindo reencontrar formas mais fluidas e seguras de se mover e habitar a própria experiência corporal.
Acupuntura com segurança é feita por médicos especialistas, certificados pelo Colégio Médicos Brasileiro de Acupuntura.
Em Luís Eduardo Magalhães, Bahia, estou disponível para avaliar seu caso, de forma individualizada, integrando diferentes possibilidades terapêuticas conforme a sua necessidade. Além da acupuntura, o cuidado pode incluir recursos como infiltrações guiadas por ultrassonografia, neuromodulação, além do uso criterioso das medicações convencionais.
Dr. Paulo Henrique Mai
Médico Acupunturista
CRM/BA 49.425 – RQE 28.147 / 28.148




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