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Termografia e acupuntura: o que a temperatura da pele pode revelar sobre a dor?

A dor nem sempre deixa marcas visíveis. Uma pessoa pode sentir queimação, peso, pontadas, choques ou uma tensão profunda, enquanto muitos exames permanece aparentemente normais. Ainda assim, sob essa superfície silenciosa, o organismo pode estar modificando o fluxo sanguíneo, a atividade metabólicas e o controle neural.


A termografia médica nos permite observar parte dessa paisagem fisiológica. Por meio de uma câmera infravermelha, o exame registra a radiação térmica naturalmente emitida pelo corpo e a transforma em um mapa de temperaturas da superfície da pele. Não utiliza radiação ionizante, não exige contato físico e pode ser repetido antes e depois de uma intervenção. Na prática da acupuntura e do tratamento da dor, sua principal contribuição está na perspectiva de “enxergar a dor”, quando possível pela técnica, e investigar manifestações vasomotoras que podem acompanhá-la.


Por meio da termografia, temos uma imagem que expressa indiretamente a relação entre circulação periférica, metabolismo local, integridade neural e atividade do sistema nervoso autônomo.


O corpo também responde à dor por meio da temperatura

A temperatura da pele não depende apenas da temperatura interna do organismo. Ela é regulada, entre outros fatores, pelo calibre dos pequenos vasos sanguíneos. Quando esses vasos se dilatam, há maior circulação de sangue próximo à superfície e a região pode se tornar mais quente. Quando se contraem, o fluxo sanguíneo cutâneo diminui e a área pode aparecer mais fria.


Grande parte desse controle é exercida pelo sistema nervoso autônomo, responsável por funções que não comandamos conscientemente, como frequência cardíaca, sudorese, pressão arterial e vasomotricidade.


A dor pode interferir nesse equilíbrio. Estímulos nociceptivos (sinais relacionados à ameaça ou à lesão dos tecidos) podem desencadear respostas reflexas simpáticas, alterando a perfusão da pele. Em algumas situações, observamos aumento focal da temperatura; em outras, resfriamento, assimetrias entre os lados do corpo ou uma distribuição térmica que acompanha determinado território anatômico.


Uma região dolorosa pode estar mais quente, mais fria ou não apresentar alteração termográfica significativa. As cores exibidas pela câmera representam diferenças de temperatura, não a intensidade do sofrimento da pessoa.


Pontos-gatilho podem produzir alterações térmicas?

Os pontos-gatilho miofasciais são áreas hiperirritáveis localizadas em uma banda tensa do músculo. Quando pressionados, podem provocar dor local, dor referida, limitação de movimento e, algumas vezes, manifestações autonômicas, como sudorese, alterações vasomotoras ou piloereção.


Na prática clínica, o diagnóstico se dá pela história, pela reprodução da dor habitual, pela palpação da banda tensa e pela avaliação funcional. A termografia pode acrescentar outra camada de informação, mas não substitui esses elementos.


Estudos investigam se pontos-gatilho ativos podem estar associados a pequenas áreas de hipertermia, hipotermia ou assimetria térmica. Uma das hipóteses é que a estimulação nociceptiva muscular produza reflexos somatocutâneos: um problema originado em estruturas mais profundas modificaria, por meio do sistema nervoso, o controle dos vasos da pele.


O antes e o depois da sessão de Acupuntura evidenciado pela termografia

Uma das aplicações mais interessantes da termografia na acupuntura está no acompanhamento de mudanças produzidas durante a sessão.


Antes do procedimento, realizo a avaliação clínica e o exame físico, procurando compreender não apenas onde dói, mas como a dor se distribui, o que a agrava, quais movimentos estão limitados e se existem características miofasciais, inflamatórias, neuropáticas ou autonômicas. A imagem termográfica pode então registrar o padrão térmico inicial e suas assimetrias.


Após a intervenção, que pode envolver acupuntura, eletroacupuntura ou agulhamento seco, conforme a indicação, uma nova imagem permite comparar as mesmas regiões. Quando um ponto-gatilho é adequadamente tratado, a pessoa pode apresentar redução da dor à palpação, menor reprodução da dor referida, aumento da amplitude de movimento e diminuição da tensão percebida. A termografia pode mostrar, paralelamente, uma reorganização do mapa térmico: redução de uma assimetria, modificação de uma área focal ou mudança na distribuição da temperatura ao longo da região examinada.


Acupuntura e sistema nervoso autônomo

A inserção da agulha constitui um estímulo sensorial capaz de mobilizar respostas locais, segmentares e centrais. Dependendo do local estimulado, da intensidade, da técnica e das características da pessoa, podem ocorrer alterações na microcirculação, na atividade simpática e na regulação neurovascular.


Alguns estudos experimentais observaram mudanças na temperatura da pele após a estimulação de pontos de acupuntura, inclusive em regiões distantes do local agulhado. Também há pesquisas mostrando que a resposta não se limita ao aquecimento: podem ocorrer variações regionais distintas, relacionadas ao estado autonômico prévio e ao tipo de estímulo empregado.


Esses achados ajudam a compreender por que algumas pessoas relatam, durante a sessão, aquecimento das extremidades, redução da sudorese, relaxamento ou uma mudança na percepção corporal. Tais experiências podem indicar que o organismo respondeu ao estímulo e modificou transitoriamente sua regulação autonômica.


E nas dores com características neuropáticas?

A dor neuropática decorre de lesão ou doença do sistema somatossensorial. Pode se manifestar como queimação, choques, formigamento, dormência, dor ao contato leve ou sensações térmicas anormais.


Quando fibras autonômicas também estão envolvidas, podem surgir alterações da sudorese, do calibre dos vasos e da temperatura cutânea. Por isso, algumas neuropatias e condições como a síndrome de dor regional complexa podem produzir assimetrias térmicas reconhecíveis.


Nesses quadros, a termografia pode contribuir para identificar uma distribuição vasomotora compatível com o território sintomático e acompanhar sua evolução. Em determinadas fases da síndrome de dor regional complexa, por exemplo, a região afetada pode estar mais quente; em fases posteriores, pode tornar-se mais fria ou apresentar recuperação térmica mais lenta.


O mesmo vale para outras neuropatias. Uma assimetria térmica pode levantar hipóteses relacionadas a existência de compressão nervosa, lesão de fibras finas, radiculopatia ou doença vascular. Quando necessário, os achados devem dialogar com exame neurológico, testes sensoriais, eletroneuromiografia, exames de imagem ou investigação metabólica.


O que a termografia acrescenta à Acupuntura?

Sua maior contribuição talvez não seja oferecer uma resposta isolada, mas favorecer uma avaliação longitudinal. A dor deixa de ser observada apenas em uma fotografia clínica estática e passa a ser acompanhada como processo.


A imagem amplia a consulta, sem substituir a clínica

Utilizo a termografia como extensão da avaliação, especialmente quando desejo investigar padrões térmicos, manifestações vasomotoras e possíveis mudanças após a acupuntura ou o tratamento de pontos-gatilho. Ela pode tornar visível parte da resposta fisiológica e contribuir para documentar a evolução.


A imagem térmica pode revelar como a superfície do corpo participa do problema, mas precisa ser interpretada à luz da história, do exame físico e da funcionalidade. Nesse encontro entre tecnologia e clínica, a termografia não substitui o olhar médico. Ela o amplia, acrescentando ao que a pessoa sente uma nova possibilidade de compreender como seu organismo responde ao cuidado.



Dr. Paulo Henrique Mai CREMEB 49.425

 
 
 

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Dr. Paulo Henrique Mai

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