top of page

Fitoterápicos no manejo da dor

Olá, meu nome é Paulo Mai, sou médico, e durante o meu mestrado estudei o uso de plantas medicinais e outras práticas integrativas por médicos. A fitoterapia é um tema que sempre me despertou interesse, mas, na prática, percebo que a internet nem sempre oferece informações confiáveis sobre o uso dessas substâncias. Por isso, nesta publicação, proponho reunir alguns dos principais fitoterápicos que utilizo no manejo da dor, trazendo informações práticas sobre suas indicações, formas de uso, cuidados necessários e o que as melhores evidências científicas disponíveis nos permitem afirmar até o momento.


É importante ressaltar que este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo. As informações aqui apresentadas não configuram prescrição médica e não se aplicam de forma direta a uma pessoa ou condição específica.


O que é dor?

A dor é uma experiência complexa, que não se reduz a um simples sinal de lesão no corpo. Do ponto de vista científico, ela é definida como uma experiência sensorial e emocional associada, ou semelhante àquela associada, a dano tecidual real ou potencial. Em outras palavras, a dor não está apenas nos tecidos, mas na forma como o sistema nervoso transmite, interpreta e atribui significado a determinados estímulos.


Essa experiência pode se manifestar de formas distintas ao longo do tempo. A dor aguda costuma ter um papel mais protetor, funcionando como um alerta diante de uma lesão ou ameaça imediata, geralmente com duração limitada e relação mais direta com o evento causador. Já a dor crônica, que persiste por meses ou anos, frequentemente perde essa função de alerta e passa a se comportar como uma condição em si, envolvendo mudanças mais amplas no sistema nervoso e na forma como o corpo processa os estímulos.


Um dos conceitos centrais nesse contexto é o de sensibilização, que pode ocorrer tanto em nível periférico quanto central. Com o tempo, o sistema nervoso pode se tornar mais responsivo, fazendo com que estímulos antes neutros passem a ser percebidos como dolorosos, ou que a intensidade da dor se amplifique. Isso ajuda a explicar por que, em muitos casos, a dor persiste mesmo quando a lesão inicial já não está mais presente de forma evidente.


Além disso, a dor é sempre atravessada por múltiplas dimensões. Fatores inflamatórios, mecânicos, neuropáticos, emocionais, relacionais e contextuais interagem de forma dinâmica. Aspectos como sono, estresse, ansiedade, experiências prévias e o próprio significado atribuído à dor podem influenciar diretamente sua intensidade e impacto na vida da pessoa.


A partir dessa compreensão mais ampla da dor, torna-se evidente que raramente estaremos diante de uma única causa e, da mesma forma, dificilmente haverá uma única solução. O cuidado da dor se constrói a partir de estratégias terapêuticas múltiplas, integradas e individualizadas, que dialogam com diferentes dimensões da experiência dolorosa. As medicações, incluindo os fitoterápicos, não são respostas isoladas, mas ampliam nossas possibilidades de manejo da dor.


Garra-do-diabo (Harpagophytum procumbens)


A garra-do-diabo é um dos fitoterápicos mais estudados no manejo da dor musculoesquelética, especialmente em condições como lombalgia e artrose. Originária do sul da África, particularmente da Namíbia, trata-se de uma planta rasteira cujas raízes secundárias tuberosas concentram os principais compostos bioativos utilizados na prática clínica.


Seu nome, derivado do grego “planta-arpão”, faz referência ao formato dos frutos, que possuem estruturas em gancho que se fixam em animais para dispersão das sementes. No entanto, é na raiz que reside seu interesse terapêutico.


Do ponto de vista farmacológico, seus principais componentes são os glicosídeos iridóides, com destaque para o harpagosídeo, ao qual se atribui grande parte de sua ação anti-inflamatória. Além disso, a planta contém flavonoides, compostos fenólicos e outros metabólitos que parecem atuar de forma sinérgica.


Na prática, a garra-do-diabo apresenta ação anti-inflamatória e analgésica, com evidência moderada para o alívio da dor em condições crônicas, especialmente de origem musculoesquelética. Seu efeito não costuma ser imediato, sendo mais perceptível após uso contínuo por algumas semanas.


Apesar de, em geral, ser bem tolerada, alguns efeitos adversos podem ocorrer, como desconforto gastrointestinal leve, cefaleia ou alteração do apetite. Um efeito laxativo discreto também pode ser observado no início do uso. Seu uso deve ser feito com cautela em pacientes com histórico de gastrite ou úlcera.


Em relação às interações, doses elevadas podem interferir com medicamentos anti-hipertensivos e antiarrítmicos, o que exige atenção em pacientes em uso dessas classes. Seu uso não é recomendado durante a gestação. Um ponto importante, especialmente na prática clínica, é reconhecer que, embora se trate de um recurso “natural”, a garra-do-diabo possui atividade farmacológica relevante.


Arnica (Arnica montana)

A arnica é provavelmente um dos fitoterápicos mais conhecidos no imaginário popular quando se fala em dor, especialmente em contextos de trauma e lesões musculares. No entanto, esse reconhecimento amplo vem acompanhado de um risco frequente: a confusão entre diferentes espécies chamadas popularmente de “arnica”, nem sempre equivalentes em termos de segurança e efeito.


A espécie classicamente descrita na fitoterapia é a Arnica montana, uma planta originária de regiões montanhosas da Europa, cujas flores concentram os principais compostos ativos.


Do ponto de vista farmacológico, seus efeitos estão relacionados principalmente às lactonas sesquiterpênicas, especialmente a helenalina, substância com ação anti-inflamatória mediada, entre outros mecanismos, pela inibição de vias inflamatórias como o NF-kB. Esses compostos também apresentam atividade citotóxica, o que ajuda a entender tanto seus efeitos terapêuticos quanto seus potenciais riscos.


Na prática clínica, a arnica é utilizada quase exclusivamente por via tópica, em formulações como cremes, pomadas, géis ou compressas. Seu uso é tradicionalmente associado a:

  • Contusões e traumas

  • Distensões musculares

  • Hematomas

  • Dor musculoesquelética localizada

  • Edema pós-traumático


Há evidência experimental e clínica que sustenta seu efeito anti-inflamatório local, embora os resultados variem conforme a formulação utilizada.


Um ponto central é que a arnica não deve ser utilizada por via oral em preparações fitoterápicas convencionais. A ingestão pode levar a efeitos tóxicos importantes, como irritação gastrointestinal, alterações neurológicas e até complicações graves, devido à ação sistêmica da helenalina. Seu uso interno é restrito a preparações homeopáticas ou antroposóficas altamente diluídas.


Mesmo no uso tópico, alguns cuidados são necessários. A arnica deve ser aplicada apenas sobre pele íntegra, evitando feridas abertas, mucosas e regiões próximas aos olhos. Pode causar dermatite de contato, especialmente em indivíduos sensíveis ou alérgicos a plantas da família Asteraceae (como camomila e calêndula). O uso prolongado ou em altas concentrações pode levar a irritação cutânea mais intensa.


De modo geral, recomenda-se seu uso por períodos curtos, em aplicações locais duas a três vezes ao dia, sempre com observação da resposta individual.


Cúrcuma (Curcuma longa)

Curcuma longa
Curcuma longa

A cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra, é uma das plantas medicinais mais estudadas nas últimas décadas, ocupando um lugar interessante na interface entre culinária e terapêutica. Originária da Índia e amplamente cultivada em regiões tropicais, ganha destaque tanto na culinária quanto nos sistemas tradicionais de medicina, como a ayurvédica.


A parte utilizada é o rizoma, estrutura subterrânea de coloração alaranjada intensa, rico em compostos bioativos, especialmente os curcuminoides, com destaque para a curcumina. Esses compostos são responsáveis pela maior parte dos efeitos farmacológicos atribuídos à planta.


Do ponto de vista clínico, a cúrcuma apresenta ação anti-inflamatória, antioxidante e imunomoduladora, com evidência crescente no manejo de condições inflamatórias crônicas, incluindo dor musculoesquelética e artrose. Seu mecanismo envolve a modulação de múltiplas vias inflamatórias, o que a diferencia de fármacos que atuam em alvos mais específicos.


Na prática, um ponto importante é a biodisponibilidade da curcumina, que, quando utilizada isoladamente, é relativamente baixa. Por isso, muitas formulações associam a substância à piperina (derivada da pimenta-preta), aumentando sua absorção.


Quando utilizada na forma alimentar, as quantidades são geralmente pequenas e com efeito terapêutico discreto.


De modo geral, a cúrcuma apresenta um bom perfil de segurança, mesmo em doses relativamente elevadas ou para uso por períodos prolongados. Pode haver desconforto gastrointestinal em alguns pacientes, e seu uso deve ser cauteloso em pessoas com doenças da vesícula biliar, como cálculos ou obstruções.


Além disso, devido ao seu efeito antiagregante plaquetário, recomenda-se evitar seu uso para pessoas que utilizam anticoagulantes sem passar por uma criteriosa avaliação médica. Seu uso não é recomendado durante a gestação, e há pouca evidência sobre segurança na lactação.


Unha-de-gato (Uncaria tomentosa)

A unha-de-gato é uma planta trepadeira originária da América do Sul e Central, bastante presente em regiões de floresta tropical, especialmente na Amazônia. Seu uso tradicional é amplo, com registros entre povos indígenas e civilizações andinas, sendo empregada há séculos no manejo de processos inflamatórios e diversas condições crônicas.


As partes mais utilizadas são a casca, as folhas e as raízes, ricas em compostos bioativos diversos. Entre eles, destacam-se os alcaloides oxindólicos, considerados marcadores importantes da planta, além de polifenóis, triterpenos e fitoesteróis. A ação farmacológica parece resultar da interação sinérgica desses diferentes componentes.


Do ponto de vista clínico, a unha-de-gato apresenta ação anti-inflamatória, antioxidante e imunomoduladora, com mecanismos que incluem, entre outros, a inibição de vias inflamatórias como a fosfolipase A2. Essa característica a torna particularmente interessante em condições crônicas nas quais a inflamação de baixo grau desempenha um papel relevante, como dores articulares e musculoesqueléticas.


Na prática, seu uso é mais frequente como terapia adjuvante, especialmente em quadros como artrose, dores crônicas e algumas condições inflamatórias sistêmicas. No entanto, a qualidade da evidência ainda é variável, com estudos heterogêneos e necessidade de maior padronização das preparações.


Um ponto importante no uso da unha-de-gato é a variabilidade química entre diferentes preparações. Produtos de melhor qualidade costumam ser padronizados para conter alcaloides oxindólicos pentacíclicos em concentrações adequadas, com baixos níveis dos alcaloides tetracíclicos, que podem interferir em seus efeitos.


Em geral, é bem tolerada, mas alguns efeitos adversos podem ocorrer, especialmente no início do uso, como alterações gastrointestinais (diarreia ou constipação) e, mais raramente, febre. Há relatos isolados de efeitos mais graves em doses elevadas.


Seu perfil imunomodulador exige atenção especial. O uso não é recomendado em gestantes, lactantes e pacientes submetidos a transplantes ou em uso de imunossupressores, dado o potencial de interferência na resposta imune. Além disso, pode interagir com algumas medicações, incluindo fármacos metabolizados pelo sistema enzimático hepático (como o CYP3A4), o que deve ser considerado em pacientes em uso de múltiplos medicamentos.


Salgueiro-branco (Salix alba)

O salgueiro-branco é um dos fitoterápicos mais clássicos no manejo da dor, com uso que remonta a séculos na medicina tradicional europeia. Sua relevância histórica é marcante: foi a partir de compostos isolados dessa planta que se desenvolveu o ácido acetilsalicílico (aspirina) um dos medicamentos mais utilizados no mundo.


A parte utilizada é principalmente a casca do tronco e dos ramos jovens, rica em salicilatos, especialmente a salicina, que no organismo é metabolizada em ácido salicílico. Esse composto está diretamente relacionado às suas propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e antipiréticas.


Do ponto de vista clínico, o salgueiro-branco apresenta efeito semelhante aos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Um aspecto interessante é que, por se tratar de um fitocomplexo, seu efeito tende a ser mais gradual e, em alguns casos, melhor tolerado do que os AINEs sintéticos, embora isso não elimine riscos.


Apesar de sua origem “natural”, o perfil de segurança do salgueiro-branco exige atenção semelhante ao dos anti-inflamatórios convencionais.


Seu uso é contraindicado em crianças e adolescentes com quadros virais devido ao risco de síndrome de Reye, uma condição rara porém grave. Também não é recomendado durante a gestação e deve ser usado com cautela em pacientes com doença renal, gástrica ou em uso de múltiplos medicamentos.


Moduladores da dor e do sistema nervoso

Nem toda dor se sustenta apenas por mecanismos inflamatórios ou mecânicos. Em muitos casos, especialmente na dor crônica, há participação importante do sistema nervoso central, com influência de fatores como sono, humor, ansiedade e estresse. Nesses contextos, alguns fitoterápicos podem atuar como moduladores da experiência dolorosa, não necessariamente reduzindo a inflamação, mas alterando a forma como a dor é percebida e processada.


A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) é um exemplo clássico. Mais conhecida por seu efeito antidepressivo, pode ser útil em quadros de dor crônica com componente emocional significativo, especialmente quando há sintomas associados como humor deprimido ou desânimo. No entanto, seu uso exige atenção especial: trata-se de uma planta com alto potencial de interação medicamentosa, podendo interferir com antidepressivos, anticoncepcionais, anticoagulantes e diversas outras classes, principalmente por indução enzimática hepática.


A valeriana (Valeriana officinalis) atua principalmente como indutora do sono e relaxante leve. Seu papel no manejo da dor é indireto, mas clinicamente relevante, especialmente em pacientes cuja dor se agrava com privação de sono ou tensão muscular persistente. Melhorar o sono, nesses casos, frequentemente impacta de forma significativa a percepção da dor.


A passiflora (Passiflora incarnata) apresenta efeito ansiolítico leve, sendo útil em quadros onde há tensão emocional, inquietação ou somatização. Pode ser considerada como parte de uma estratégia mais ampla de regulação do sistema nervoso, especialmente em pacientes com dor associada a estresse.


A cannabis (Cannabis sativa) merece um capítulo à parte nesse grupo. Seus principais compostos, como o THC e o CBD, atuam no sistema endocanabinoide, que desempenha papel relevante na modulação da dor, do humor, do sono e da resposta ao estresse. Há evidência crescente para seu uso em condições como dor neuropática, dor crônica refratária e espasticidade. A escolha da formulação (proporção entre THC e CBD), dose e via de administração impactam diretamente tanto os efeitos terapêuticos quanto os colaterais.


Considerações finais

Ao longo deste texto, vimos que diferentes plantas podem atuar em múltiplas dimensões da dor (inflamatória, neurológica, emocional), reforçando a ideia de que não há uma única via de abordagem para um fenômeno tão complexo. De igual maneira, notamos que “natural” não é sinônimo de inócuo. Fitoterápicos possuem atividade farmacológica real, com potenciais benefícios, mas também riscos, interações e contraindicações que precisam ser considerados.


Neste texto, apresentei alguns dos fitoterápicos com os quais tenho maior vivência na prática clínica, trazendo uma leitura predominantemente a partir da perspectiva biomédica. Naturalmente, esse campo é amplo e diverso, e muitos outros recursos poderiam ser explorados.


Se você sentiu falta de algum fitoterápico ou tem interesse em aprofundar algum tema específico, fique à vontade para deixar nos comentários.



Dr. Paulo Henrique Mai

Médico de Família e Acupunturista

CRM/BA 49.425 - RQE 28.147 / 28.148

 
 
 

Comentários


Dr. Paulo Henrique Mai

Clínica Lago - Rua Piauí, 80 - Sala 27 - Centro

Luis Eduardo Magalhães (BA) 

CRM-BA 49.425 - RQE 27.147/27.148

Atendimento por Telemedicina para todo o país.

​​

(77) 9 9836-6918

© 2017 - 2025 desenvolvido com amor por Paulo Henrique Mai

bottom of page